Canção final
Oh! se te amei, e quanto!
Mas não foi tanto assim.
Até os deuses claudicam
em nugas de aritmética.
Meço o passado com régua
de exagerar as distâncias.
Tudo tão triste, e o mais triste
é não ter tristeza alguma.
É não venerar os códigos
de acasalar e sofrer.
É viver tempo de sobra
sem que me sobre miragem.
Agora vou-me. Ou me vão?
Ou é vão ir ou não ir?
Oh! se te amei, e quanto,
quer dizer, nem tanto assim.
As obras-primas devem ter sido geradas por acaso; a produção voluntária não vai além da mediocridade.
O poeta entra no elevador
O poeta sobe
O poeta fecha-se no quarto
O poeta está melancólico.
Que pode uma criatura senão,
entre outras criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
– O senhor cultiva
epigramas?
– Não, só a grama do meu jardim.
– Alô, quem fala?
– Ninguém. Quem fala é você que está perguntando quem fala.
– Mas eu preciso saber com quem estou falando.
– E eu preciso saber antes a quem estou respondendo.
– Assim não dá. Me faz o obséquio de dizer quem fala?
– Todo mundo fala, meu amigo, desde que não seja mudo.
– Isso eu sei, não precisava me dizer como novidade. Eu queria saber é quem está no aparelho.
– Ah, sim. No aparelho não está ninguém.
– Como não está, se você está me respondendo?
– Eu estou fora do aparelho. Dentro do aparelho não cabe ninguém.
– Engraçadinho. Então, quem está fora do aparelho?
– Agora melhorou. Estou eu, para servi-lo.
– Não parece. Se fosse para me servir já teria dito quem está falando.
– Bem, nós dois estamos falando. Eu de cá, você de lá. E um não conhece o outro.
– Se eu conhecesse não estava perguntando.
– Você é muito perguntador. Pois se fui eu que telefonei.
– Não perguntei nem vou perguntar. Não estou interessado em conhecer outras pessoas.
– Mas podia estar interessado pelo menos em responder a quem telefonou.
– Estou respondendo.
– Pela última vez, cavalheiro, e em nome de Deus: quem fala?
– Pela última vez, e em nome da segurança, por que eu sou obrigado a dar esta informação a um desconhecido?
– Bolas!
– Bolas digo eu. Bolas e carambolas. Por acaso você não pode dizer com quem deseja falar, para eu lhe responder se essa pessoa está ou não aqui, mora ou não mora neste endereço? Vamos, diga de uma vez por todas: com quem deseja falar?…Silêncio.
– Vamos, diga: com quem deseja falar?
– Desculpe, a confusão é tanta que eu nem sei mais. Esqueci. Tchau!
O amor é grande mas cabe no breve espaço de beijar.
Dentro de mim, bem no fundo/ há reservas colossais de tempo,/ futuro, pós-futuro, pretérito.
Amor nenhum dispensa uma gota de ácido
O Amor Bate na Aorta
Cantiga de amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.Meu bem, não chores,
hoje tem filme de Carlito.O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.Amor é bicho instruído.
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que corre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender…
O homem vangloria-se de ter imitado o voo das aves com uma complicação técnica que elas dispensam.
Há certo gosto em pensar sozinho. É ato individual, como nascer e morrer.
O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.
Sentimento do Mundo
Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microcopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanheceresse amanhecer
mais noite que a noite.
Também temos saudade do que não existiu, e dói bastante.
As palavras fogem quando precisamos delas
e sobram quando não pretendemos usá-las.
Há uma hora propícia ao arrependimento: a da morte, quando já não é possível nos arrependermos dele.
Adão, o primeiro espoliado – e no próprio corpo.
“Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança”.(Trecho dos versos publicados originalmente no livro “Sentimento do Mundo”, Irmãos Pongetti – Rio de Janeiro, 1940. Foram extraídos do livro “Nova Reunião”, José Olympio Editora – Rio de Janeiro, 1985, pág. 78.)
Eu estava sonhando.
E há em todas as consciências um cartaz amarelo:
“Neste país é proibido sonhar”.
Porque calando nem sempre quer dizer que concordamos com o que ouvimos ou lemos, mas estamos dando a outrem a chance de pensar, refletir, saber o que falou ou escreveu.
Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse. Amor foge a dicionários e a regulamentos vários.
Eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força o resgata.
Os homens são como as moedas; devemos tomá-los pelo seu valor, seja qual for o seu cunho.
Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas.
No Ouintana’s Bar,
sou assíduo cliente.
É um bar que não é bar,
é um bar diferente.
“O amor que move o Sol,
como as estrelas”” ser busca outro ser, ao conhecê – lo
acha a razão de ser, já dividido.
São dois em um:, sublime selo
que à vida imprime cor, graça e sentido.“Amor – eu deisse – e floriu uma rosa
embalsamando a tarde melodiosa
no canto mais ocluto do jardim, mas seu perfume não chegou a mim”
Todo mundo é bom quando não usa a cabeça.
O dia dos Namorados para mim é todo dia. Não tenho dias marcados para te amar noite e dia.
Sentimos saudade de certos momentos da nossa vida e de certos momentos de pessoas que passaram por ela.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
É menor pecado elogiar um mau livro sem o ler do que depois de o ter lido. Por isso, agradeço imediatamente depois de receber o volume. Não há vida literária plenamente virtuosa.
A minha vontade é forte, porém minha disposição de obedecer-lhe é fraca.
Para a virtude da discrição, ou de modo geral qualquer virtude, aparecer em seu fulgor, é necessário que faltemos à sua prática.
O homem, bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria e pouca diversão,
faz um foguete, uma cápsula, um módulo
toca para a Lua
desce cauteloso na Lua
pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
coloniza a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua.Lua humanizada: tão igual à Terra.
O homem chateia-se na Lua.
Vamos para Marte — ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em Marte
pisa em Marte
experimenta
coloniza
civiliza
humaniza Marte com engenho e arte.Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro — diz o engenho
sofisticado e dócil.
Vamos a Vênus.
O homem põe o pé em Vênus,
vê o visto — é isto?
idem
idem
idem.O homem funde a cuca se não for a Júpiter
proclamar justiça junto com injustiça
repetir a fossa
repetir o inquieto
repetitório.Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira Terra-a-terra.
O homem chega ao Sol ou dá uma volta
só para tever?
Não-vê que ele inventa
roupa insiderável de viver no Sol.
Põe o pé e:
mas que chato é o Sol, falso touro
espanhol domado.Restam outros sistemas fora
do solar a col-
onizar.
Ao acabarem todos
só resta ao homem
(estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
pôr o pé no chão
do seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar
o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria
de con-viver.
Há duas épocas na vida, infância e velhice, em que a felicidade está numa caixa de bombons.
Congresso Internacional do Medo
Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.